sábado, 30 de abril de 2011

Belas, feras e palavras

.
.
.

Cena de La belle et la bête, filme de Jean Cocteau (1946)



"(...) Donde nova visão do eu-te-amo. Nao é um sintoma, é uma ação. Pronuncio para que você responda, e a forma escrupulosa (a letra) da resposta revestirá um valor efetivo, ao modo de uma fórmula. Não é pois suficiente que o outro me responda com um simples significado, mesmo que positivo ("eu tambem"): é preciso que o sujeito interpelado assuma formular, proferir o eu-te-amo que lhe estou estendendo: Eu te amo, diz Pélias - Eu tambem te amo, diz Melisande. A exigência imperiosa de Pélias (supondo-se que a resposta de Melisande tenha sido exatamente a que ele esperava, o que e provável, pois que ele morre imediatamente depois) parte da necessidade, para o sujeito amoroso, não apenas de ser igualmente amado, de sabê-lo, e de ter absoluta certeza disso, etc. (todas as operações que não excedem o plano do significado), mas também de ouvi-lo dizer, de uma forma tão afirmativa, tão completa, tão articulada quanto a sua própria; o que quero é receber de cara, inteiramente, literalmente, sem rodeios, a fórmula, o arquétipo da palavra de amor: sem delongas sintáticas, sem variações: que as duas palavras se respondam em bloco, coincidindo significante por significante ('Eu tambem' seria exatamente o contrário de uma holofrase); o que importa e a proferição física, corporal, labial da palavra: abra os lábios e que a palavra deles saia (seja obsceno). O que quero, desesperadamente, é obter a palavra. Mágico, mítico? A Fera - retida encantada em sua feiúra - ama a Bela; a Bela, evidentemente, não ama a Fera, mas, no final, vencida (pouco importa pelo que; digamos: pelas conversas que tem com a Fera), ela lhe diz a palavra mágica: "Eu a amo, Fera"; e imediatameme, através do dilacerar suntuoso de um toque de harpa, um sujeito novo aparece. (...)"


(Roland Barthes, in Fragmentos de um discurso amoroso)

.


quarta-feira, 20 de abril de 2011

... o silêncio e o cais

.
.
.

O mar em Cartagena de las Índias, Colômbia



Meu coração tropical está coberto de neve mas
Ferve em seu cofre gelado
E à voz vibra e a mão escreve mar
Bendita lâmina grave que fere a parede e traz
As febres loucas e breves
Que mancham o silêncio e o cais
Roseirais Nova Granada de Espanha
Por você eu teu corsário preso
Vou partir na geleira azul da solidão
E buscar a mão do mar
Me arrastar até o mar procurar o mar
Mesmo que eu mande em garrafas
Mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Com as garrafas de náufragos
E as rosas partindo o ar
Nova Granada de Espanha
E as rosas partindo o ar


(Corsário, João Bosco e Aldir Blanc)


  video

.
.

sábado, 16 de abril de 2011

Beware of...

.
.
.
Marc Chagall. Lovers in the Lilacs. 1930.
 Oleo sobre tela. Richard S. Zeisler Collection, New York




O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua preseça,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.


(Adélia Prado. "Corridinho", in O coração disparado)
.
.

terça-feira, 12 de abril de 2011

L'Amaryllis du Sharôn

..
.Talvez escrito pelo próprio Salomão, certamente metafórico - não importa -
eis um trecho de um dos mais belos livros
que compõem o Antigo Testamento
 na tradução francesa de A. Chouraqui




Gustave Moreau. Amarílis de Saron. Cântico dos cânticos. 1893.
 Aquarela. Ohara Museum of Art



Lotus des vallées


Moi, l’amaryllis du Sharôn, le lotus des vallées.
Comme un lotus parmi les vinettiers, telle est ma compagne parmi les filles.
Comme un pommier parmi les arbres de la forêt,
tel est mon amant parmi les fils.
Je désirais son ombre, j’y habite;
son fruit est doux à mon palais.
 Il m’a fait venir à la maison du vin;
son étendard sur moi, c’est l’amour.
 Soutenez-moi d’éclairs, tapissez-moi de pommes:
oui, je suis malade d’amour.
 Sa gauche dessous ma tête, sa droite m’étreint.
 Je vous adjure, filles de Ieroushalaîm,
par les gazelles ou par les biches du champ,
n’éveillez pas, ne réveillez pas l’amour avant qu’il le désire!


*


"Uma leitura atenta dos 117 versos que compõem do Cântico dos cânticos revela dois planos de significação que se conjugam: um plano humano, onde o autor coloca em cena um homem e uma mulher unidos pelo amor, e um plano cósmico relativo à criação inteira. Os leitores que enxergassem aqui apenas uma história de amor eliminariam, conscientemente ou não, os vastos horizontes de onde esse amor surge e no qual ele se move.  É na universalidade do real que o amor nasce. A poesia hebraica conjuga, também ela, o o humano e o cosmos; ela vê o real sob a forma de um homem, e nesse homem a totalidade do universo."



(Cantique des Cantiques, cap. II. na tradução e comentário de Nathan André Chouraqui
- minha tradução do comentário de Chouraqui)






sábado, 9 de abril de 2011

À sombra dos muros

.
.

.A partir de Odilon Redon. Rua em Samois.
1888. Amsterdã, Museu Van Gogh



Hoje, noite de Abril, sem lua,
A minha rua
É outra rua.


Talvez por ser mais que nenhuma escura
E bailar o vento leste
A noite de hoje veste
As coisas conhecidas de aventura.

Uma rua nova destruiu a rua do costume.
Como se sempre nela houvesse este perfume
De vento leste e Primavera,
A sombra dos muros espera

Alguém que ela conhece.
E às vezes, o silêncio estremece
Como se fosse a hora de passar alguém
Que só hoje não vem.


 
(Sophia de Mello Breyner Andresen,
“Noite de abril”, in Obra Poética I )
.
.


sábado, 2 de abril de 2011

Solar

.

Quando se trata de infância, minha memória é plena de imagens solares,
 verdadeiramente luminosas. Havia até um pé de amora, perto do colégio...


.
.

Mary Cassatt. Summertime. c.1894.
Óleo sobre tela; 100,7x81,3cm. Terra Foundation for the Arts



INFÂNCIA

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".



(Guilherme de Almeida, "Infância", in Haicais)