terça-feira, 30 de março de 2010

Como um girassol

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O
meu olhar
é

nítido


                                                                                   





como um



                                                   



...Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…








Texto de Fernando Pessoa, in O Guardador de Rebanhos, II. Imagens: Emil Nolde. Girassóis II. 1936. Óleo s/ tela. Madri, Thyssen-Bornemisza;  Vibrante florescer. c1913. Aquarela; 30,5x45,3cm. col priv. ; Vincent van Gogh. Girassóis. 1888. Londres, National Gallery; Vincent van Gogh: Girassóis. jan1889. Óleo s/ tela; 95x73cm. Amsterdã, Museu Van Gogh; Doze girassóis num vaso. out1888. ost; 91x72cm. Munique, Neue Pinakhotek.
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segunda-feira, 29 de março de 2010

Pastoreio

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F. Childe. Hassam. Paisagem do Oregon, Alkali. 1908. Óleo s/ tela; 50,8x76,8cm. Col priv.
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domingo, 28 de março de 2010

sábado, 27 de março de 2010

Sob as estrelas

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Vincent van Gogh. A noite estrelada. junho de 1889. Óleo s/ tela; 73x92cm. MoMA, NY


*sider*

(estrela)



  
C. D. Friedrich. Casal contemplando a lua. Óleo s/ tela;34x44cm. Berlim, Nationalgalerie



con * sider * ar

(observar as estrelas...


e daí pensar atentamente,
avaliar,
ponderar...)






de * sider * ar

(deixar de vê-las

e então sentir sua falta,
sentir saudades.
Desejar...)


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quarta-feira, 24 de março de 2010

Entre-deux

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 Casa em Tiradentes. Outubro de 2009



entre






  dois                                                         mundos





Pôr-do-sol da janela de Amarilis. Março de 2010





... entremeio ...

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segunda-feira, 22 de março de 2010

Love is a place

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Uma casinha na Mantiqueira


love is a place...

e. e. cummings

 
love is a place
& through this place of
love move
(with brightness of peace)
all places


yes is a world
& in this world of
yes live
(skilfully curled)
all worlds


°°°



O amor é um lugar
e por esse lugar
de amor se movem
(com o brilho da paz)
todos os lugares


Sim, é um mundo
e nesse mundo de
sim vivem
(cuidadosamente aninhados)
todos os mundos


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(minha tradução)

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domingo, 21 de março de 2010

In time of daffodils

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Berthe Morisot. Narcisos. 1885. Óleo sobre tela. Coleção privada




In time of daffodils 
e. e. cummings 


in time of daffodils (who know
the goal of living is to grow)
forgetting why, remember how

in time of lilacs who proclaim
the aim of waking is to dream,
remember so (forgetting seem)

in time of roses (who amaze
our now and here with paradise)
forgetting if, remember yes

in time of all sweet things beyond
whatever mind may comprehend,
remember seek (forgetting find)

and in a mystery to be
(when time from time shall set us free)
forgetting me, remember me

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Em tempo de narcisos (que sabem
que o sentido da vida é crescer,
esquecendo  o porquê, recorda o como)

Em tempo de lilases, que anunciam
que a intenção do despertar é sonhar,
recorda o assim (esquecendo o  parece)

Em tempo de rosas (que maravilham
de paraíso nosso aqui e agora,
esquecendo o se, recorda o sim)

Em tempo de todas as doçuras para além
do que quer que a mente possa compreender,
recorda o procurar (esquecendo o encontrar)

E num mistério para acontecer
(quando o tempo do tempo nos desprender)
Esquecendo-me, recorda-me

(minha tradução)






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Narciso (do grego nárkissos) é o nome da flor na qual teria se transformado o belo e indiferente Narciso, segundo as Metamorfoses de Ovídio. O poema de e. e. cummings, no entanto, não alude ao personagem mitológico ou à ideia do extremado amor por si próprio. Em inglês, aliás, a palavra sequer retoma a origem grega que aparece no português, no francês  (narcisse) ou no italiano (narciso). 
Ademais, a flor narciso, que morre no verão e renasce na primavera, pode aludir simbolicamente à própria primavera, ao sono, à morte e à Ressurreição e ainda foi empregada nas represetações marianas por conta de sua semelhança com o lírio. Na China, é sinal de boa sorte no ano novo.
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sábado, 20 de março de 2010

Estreliz

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Estreliz/estrelizia num canto de rua.  Março de 2010


flor-estrela






          d
            e
               s
                  t
                      e
                            r
                                  r
                                          a   
                                                     d


          a







                                                                                                      o
                                                                               o
                                                                          v

                                                         o
                                       sonh a  







pássaro-flor

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sexta-feira, 19 de março de 2010

Paradeisos

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(Paraíso: a palavra vem do latim paradisus, que por sua vez vem do grego paradeisos, que tem origem no persa pairidaeza – significando ‘jardim’ –, que é formada pela junção das palavras sânscritas pari + dêha, que se traduzem por ‘recinto sagrado’)




Evocando o Éden primordial, o lugar ordenado e seguro onde o Criador teria abrigado sua criação, o jardim é uma recriação do paraíso. Assim como o gênero pictórico da 'natureza-morta', o jardim se coloca igualmente entre natura e cultura: ele é a natureza selecionada, organizada, domada, cultivada pelo homem para o seu prazer e bem-estar.



Erastus Salisbury Field. O jardim do Éden. 1865


A etimologia nos fala claramente sobre a junção de ideias na formação do jardim, que nasce no Oriente desértico como um espaço de belezas e delícias sonhando recuperar o paraíso. Beleza e frescor de vegetação abundante composta por flores, por árvores de frutos e sombra, por fontes que jorram a água essencial. A palavra el-arab, de origem semita, quer dizer ‘deserto’ e refere-se genericamente aos povos das regiões áridas do oriente - os árabes -, para os quais água e sombra, reunidas na circunscrição das residências, das propriedades, compunham um osásis particular. Pairidaeza, vocábulo persa que significa ‘jardim’ , é formado pela junção das palavras sânscritas pari + dêha, que se traduzem por ‘recinto sagrado’.
 

 
Anônimo. Figuras em um jardim. Irã, início do século XVII.
Guache e ouro sobre papel. Paris, Museu do Louvre



Indo ainda mais além, no desejo de multiplicar esses trechos paradisíacos, os persas transpuseram o jardim para dentro de suas próprias casas, e fizeram dos tapetes a sua metáfora.




Tapete do tipo Tabriz, cuja denominação vem do nome da cidade persa de origem.


Muitos motivos botânicos foram então estilizados e se revestiram de significados específicos. Um dos motivos mais empregados na decoração do tapete persa é o boteh, que nasceu da imagem da amendoeira, significando a vida, sempre colocado ao lado do boteh-miri, o cipreste, significando a morte.




O motivo do 'boteh'


O Ocidente medieval tomou a idéia do recinto sagrado e revestiu-a de um significado cristão: o hortus conclusus – do latim ‘jardim fechado’ –, que passou a ser um atributo mariano, aludindo à pureza virginal da mãe do filho de Deus. No jardim em que Maria se coloca, não faltam as rosas, outro de seus atributos. Uma pintura italiana do século XIV representa um hortus conclusus com a mesma riqueza decorativa (ademais típica do gótico internacional) que encontramos nos tapetes persas.




Stefano da Verona. N. Senhora do Roseiral. c1420.
têmpera sobre madeira, 63x46cm. Verona, Museo di Castelvecchio



Com a difusão do gênero pictórico da paisagem (tão subalterno quanto o da natureza-morta na hierarquia dos gêneros até o século XVIII), o jardim passa a ser olhado e interpretado na sedutora variedade de cores e texturas que apresenta. Aberto ou fechado, ordenado ou abandonado, é simplesmente um jardim que se oferece à luz.

Eugène Boudin. O jardim. 1869. Óleo sobre tela. Coleção privada.

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Memento mori

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Enquanto o talentoso Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) se encantava com os aspectos colorísticos e plásticos de uma cesta repleta de frutos, entre os séculos XVI e XVII, os teóricos da arte oficializavam a hierarquia de temas pictóricos, minimizando o valor dos arranjos de flores e frutas com a alegação de que não traziam o mesmo acréscimo ao ser humano quanto trazia uma alegoria moral ou uma pintura de história. Em suma, não haveria ‘lição’ a ser ensinada por essas imagens, além de sugerirem um quase sempre condenável prazer dos sentidos.



Caravaggio. Cesta de frutas. 1597. Óleo sobre telat; 31 x 97cm. Milão, Pinacoteca Ambrosiana


Com as mudanças na arte preconizadas pela Igreja Católica contrarreformada - que combatia então o avanço do protestantismo e necessitava fazer propaganda por meio da arte –, as pinturas mais simples passaram a ser revestidas de sentido alegórico e metafórico. Isso atinge também esse gênero que vinha lentamente se afirmando, contra as pregações acadêmicas, e que é exemplo de domínio do desenho e virtuosismo do pincel.

Portanto, em especial no mundo católico as naturezas-mortas vão se cobrir de significados que exigem decifração, entendimento. Frutas e flores, ou objetos como copos de água ou jarros de vidro vão falar sobre virtudes e vícios, vão qualificar as lições sagradas, muitas vezes feitas da justaposição de substantivos abstratos: a romã, por exemplo, fala da Ressurreição; o pêssego, da Verdade; as moedas, da Vaidade; o lírio, da Pureza, e assim por diante.

A propósito da Vaidade, outra questão é colocada no âmbito das naturezas-mortas simbólicas, sobretudo quando essas, além dos alimentos, apresentam outros objetos (normalmente de explícita referência a um dos cinco sentidos), tais como instrumentos musicais, espelhos, jóias, moedas, bolsas, coroas, cetros, velas, taças, etc. Uma interpretação bastante comum desse gênero de pintura é aquela que as identifica com uma mensagem de cunho moral a partir da idéia de vanitas. ‘Vanitas’ significa ‘vazio’: o vazio do que é efêmero, das coisas terrenas; e é o vocábulo latino que, no português, está tanto na origem do substantivo ‘vaidade’ quanto na do adjetivo ‘vão’. É possível, assim, entender a maior parte das naturezas-mortas não apenas como demonstração de virtuosismo artístico, mas como alegorias morais, como mensagens que lembram ao homem a passagem do tempo e, sobretudo, a certeza da morte, que tudo aniquila (para o historiador E. H. Gombrich, aliás, toda natureza-morta seria vanitas). O alimento que perde o viço, a caça abatida, as flores cortadas são lembretes de que a vida é um estado transitório. São memento mori: lembrança da morte, e os elementos mais evidentemente relacionados ao aspecto da transitoriedade da vida e à passagem do tempo são os crânios, as ampulhetas, os insetos que rondam.


Jacques de Gheyn, o velho. Vanitas still life. 1603.
Óleo sobre madeira; 82,6x54cm. NY, Metropolitan Museum


B. van der Ast. Cesta de frutas. c1625.
Óleo sobre madeira, 14x20cm. Berlim, Staatliche Museen


Os objetos que remetem à vaidade, à soberba, ao luxo colocariam a mesma lição: não se apegar à riqueza, ao poder, aos aspectos materiais e fúteis, porque estes não apenas podem aludir a um estado transitório, instável, efêmero como a própria vida, mas igualmente porque não terão serventia àquele que já exalou o último sopro. Porque tudo que é matéria, que é corpo, perecerá. São imagens que de forma mais ou menos direta exortariam ao cultivo do espírito em detrimento de valores terrenos. Imagens, porém, que ao nos fascinar pela habilidade mimética da interpretação da realidade, funcionam, ambiguamente, como uma exaltação mal disfarçada de tudo o que tentam negar.

Pieter Boel. Vanitas. 1663. óelo sobre tela; 207 x 260 cm. Lille, Musée des Beaux-Arts

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quinta-feira, 18 de março de 2010

Fall

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Odilon Redon. Painel decorativo. c.1902. Rijksmuseum Twenthe



Herr, es Herr, es ist Zeit! Der Sommer war sehr gross.

Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
Und auf den Fluren lass die Winde los.

de Herbsttag, de Rainer Maria Rilke




Senhor, é Tempo! O verão foi imenso.
Coloque sua sombra no relógio-de-sol,
E solte os ventos nos campos.

de Dia de Outono, de Rainer Maria Rilke



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quarta-feira, 17 de março de 2010

De l'Amour



Quand l'amour vous fait signe, suivez-le,
Bien que ses chemins soient raides et ardus.
Et quand il vous enveloppe de ses ailes, cédez-lui,
Même si l'épée cachée dans ses pennes vous blesse,
Et quand il vous parle, croyez en lui,
Même si sa voix brise vos rêves comme le vent du nord dévastant un jardin.
Car si l'amour vous couronne, il vous crucifie aussi.
Et s'il est pour votre croissance, il est aussi pour votre élagage.
De même qu'il s'élève à votre hauteur pour caresser vos plus tendres branches
frémissant dans le soleil,
Il descend jusqu'à vos racines et les secoue de leur adhérence à la terre.
Telles des gerbes de blé, il vous ramasse et vous serre contre lui.
Il vous vanne pour vous dénuder.
Il vous tamise pour vous libérer de votre enveloppe.
Il vous pile jusqu'à la blancheur.
Il vous pétrit jusqu'à vous rendre malléables;
Puis il vous assigne à son feu sacré
afin que vous deveniez pain sacré au festin sacré de Dieu.
Tout cela, l'amour vous le fait subir
afin que vous connaissiez les secrets de votre coeur et,
au travers de cette connaissance,
deveniez fragment du coeur de la Vie.
Mais si, pusillanimes,
vous ne recherchiez que la paix de l'amour et sa volupté,
Mieux vaudrait pour vous couvrir votre
nudité et sortir de l'aire de l'amour,
Pour pénétrer dans le monde sans saisons
en lequel vous rirez, mais pas de tout votre rire,
et pleurerez, mais pas de toutes vos larmes.
L'amour ne donne que de lui même et ne prend que de lui-même.
L'amour ne possède pas et ne saurait être possédé.
Car l'amour suffit à l'amour.
Lorsque vous aimez, vous ne devriez pas dire :
"Dieu est dans mon coeur", mais plutôt :
"Je suis dans le coeur de Dieu."Et ne croyez pas qu'il vous appartienne de diriger
le cours de l'amour, car c'est
l'amour, s'il vous en juge dignes, qui dirigera le vôtre.
L'amour n'a d'autre désir que de s'accomplir.
Mais si vous aimez et ne pouvez échapper aux désirs,
qu'ils soient ceux-ci:
Vous dissoudre et être comme l'eau vive d'un ruisseau
chantant sa melopée à la nuit,
Connaître la douleur d'une tendresse excessive,
Recevoir la blessure de votre conception de l'amour,
Perdre votre sang volontiers et avec joie,
Vous réveiller aux aurores, le coeur ailé,
et rendre grâces pour une nouvelle journée d'amour,
Vous reposer à l'heure du méridien
et méditer l'extase de l'amour,
Revenir à votre foyer le soir, avec gratitude,
Puis vous endormir avec au coeur une prière
pour l'être aimé et sur vos lèvres un chant de louange.





de um antigo poema oriental

Para ouvir uma bela tradução deste poema para o português na voz de Letícia Sabatella:


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Faz-de-conta

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reinventando




a vida





num quarto de hotel




Intervenções sobre a pintura de John Singer Sargent. Quarto de hotel. 1906-07. Óleo sobre tela. Coleção privada.
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L'infini

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Sous l’espace
assoupi






bercé par le

s    i    l   e   n   c   e






les sombres desseins réverbèrent


l’infini




Intervenções sobre pintura de Samuel Palmer. Harvest moon. 1830s.
Trechos do poema de Ipzo L’Animot, L'Astrolatre.

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terça-feira, 16 de março de 2010

Dedirrósea

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                          Aurora





a deusa dos dedos de rosa






que descerra as pálpebras
do dia





Intervenções sobre pintura de Martin J. Heade (Dawn. 1862. Óleo sobte tela; 31,1x61,6cm. Boston (?) Museum of Fine Arts) e A.-W. Bouguereau ( L'Aurore). Texto de R. Guimarães, in Dicionário da mitologia grega. São Paulo: Cultrix, 1995.
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Trompe l'oeil

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Atribuído a Lang Shining (Giuseppe Castiglione). Um vaso de flores.
Nanquim e tinta colorida sobre seda; 119,1x55,6cm. Coleção privada.





Parece, mas não é...



À primeira vista, parece pintura oriental. Mas, de imediato, há certo estranhamento. Este só se esclarece quando descobrimos que se trata de uma pintura atribuída ao jesuíta em missão na China Giuseppe Castiglione (1688-1768) - ali chamado 'Lang Shining'. O olhar oriental com toda probabilidade não centralizaria esse vaso de flores sobre o suporte, nem o manteria tão distanciado do espectador.

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segunda-feira, 15 de março de 2010

Un point sur un i




Georges Lemmen. Heyst n.19 - Clear Night, Moon. 1891. óleo sobre madeira. Coleção privada


                                          La lune
              Comme un point
         sur un


i




 (Alfred de Musset, Ballade à la Lune, in Premières poésies)




f l e u r   d e   l a   n u i t

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