segunda-feira, 18 de julho de 2011

todo ojos

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Intervenção sobre Cabeza de hombre, de Pablo Picasso. 



"Siempre es todo ojos.
No te quita ojos.
Se come las palabras con los ojos.
Es el siete ojos.
Es el cien mil ojos en dos ojos.
El gran mirón
como un botón marrón
y otro botón.
El ojo de la cerradura
por el que se ve la pintura.
El que te abre bien los ojos.
El ojo de la aguja
que sólo ensarta quando dibuja.
El que te clava con los ojos
en un abrir y cerrar de ojos."



(Rafael Alberti,
 "Los Ojos de Picasso",
 in Los 8 nombres de Picasso)
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terça-feira, 12 de julho de 2011

l o o o n g o gesto

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Cy Twombly. Wilder shores of love. 1985. 
Óleo, giz e lápis sobre compensado; 140x120cm. coleção privada





Este fruto:
amarmos.

Longo gesto o de apanhá-lo
no vento.


(Eucanaã Ferraz, "Este fruto",
 in Desassombro, 2003)

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domingo, 10 de julho de 2011

Ars

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Cy Twombly. Sem título. 2007. Acrílico sobre madeira. coleção privada



Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?



(Sun Dong Po (1035-1101). 
Sobre a pintura de um ramo florido 
'Primavera precoce', de Wang
Tradução de Adelino Ínsua)

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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Débris

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Egon Schiele. Cerâmica. 1918. Aquarela. coleção privada



À force de me cogner
contre tes murs
je me sens devenir
un gros éléphant gris
barrissant tristement
dans ton salon,
cassant par inadvertance
les Wedgwood de l’oncle Pierre,
la soupière K’ang-hi de grand-mère
et tout le service de la Compagnie des Indes
du cousin Antoine.
C’est ça le drame, quant on est
un gros éléphant gris
esseulé et maladroit :
le propre poids de l’inertie
peut casser bien des choses,
le désir, l’indifférence,
les porcelaines, le silence,
l’absence, toi, moi,
mais pas tes murs.
Ma grosse tête éléphantine
continuera inlassablement, stupidement
à cogner dessus
ad nauseam.
 

(Isabel Meyrelles, in Poesia, 2004)

°°

De tanto me chocar
contra teus muros
Sinto-me a me transformar
num grande elefante cinza
tristemente  bramindo
em tua sala
quebrando por inadvertência
os Wedgwood do tio Pedro
a sopeira K’ang-hi da avó
e todo o serviço da Companhia das Índias
do primo Antônio.
Esse é o drama, quando se é
um grande elefante cinza
segregado e desajeitado:
o próprio peso da inércia
pode realmente quebrar coisas
o desejo, a indiferença
a porcelana, o silêncio
a ausência, você, eu
mas não teus muros.
Minha grande cabeça elefantina
continuará incansavelmente, estupidamente
a bater
ad nauseam.




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domingo, 3 de julho de 2011

Et in Arcadia ego

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Nicolas Poussin. Et in Arcadia ego. 1638-1640. 
Óleo sobre tela;121x85cm. Paris, Museu do Louvre



Domingo nos campos da Toscana:
vinhas enfileiradas.
oliveiras ondeando morros.
ciprestes pontuando torres e castelos
como se os sons de Frescobaldi 
se condensassem em paisagem.

No entanto, 
                                 aqui e ali
ouço estampidos que rasgam o azul:
um caçador de domingo com seu cão
desce solerte a encosta
com sua arma na mão.

Caem pássaros que não vejo
                                           vitimados
sobre as folhas do chão.
Domingo nos campos da Toscana:
_ a morte também envia seus ruídos
nos momentos de perfeição.


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(Affonso Romano de Sant'Anna, 
"Domingo nos campos da Toscana", 
in Poesia Reunida, 1965-1999)


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sábado, 2 de julho de 2011

Requentado e ressentido

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ocaso-arrebol da minha varanda da Mantiqueira: contrário de manhã.



Sonnet 116 - William Shakespeare


Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:

O no! it is an ever-fixed mark
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.

Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come:
Love alters not with his brief hours and weeks,

But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.

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Que eu não me permita, à união de almas sinceras, 
aceitar impedimentos. Amor não é amor 
Se ao encontrar obstáculos se modifica, 
Ou se cede ao que o desvia, e logo se retira. 
Oh, não! O amor é um marco eterno, 
Que contempla a tempestade e não se abala; 
É a estrela que norteia a barca errante
Em mensurável altura, mas de insondável valor 
O amor não é um bufão do Tempo, embora
Sua foice apanhe da juventude o róseo semblante; 
O amor não se altera em breves horas e instantes, 
Mas resiste mesmo ao fim dos tempos. 
Contudo, se estou errado e alguém o provou, 
Então nada escrevi e jamais alguém amou.


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(é minha a tradução capenga e apressada...
Ouçam e vejam  a doce Eleanor lendo este soneto a um interlocutor que, 
sem compreender patavina de Shakespeare, entende tudo, tudinho...)

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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sem pensa

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ão tenho pensa.
                        Tenho só árvores ventos
                passarinhos -- issos.

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.(Manoel de Barros,  "O livro de Bernardo", 
in Tratado geral das grandezas do ínfimo)

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[A senhorinha que trabalhava como doméstica 
para uma amiga minha  
disse que cozinhava, sim,  mas 
- foi logo anunciando - 
que se fosse pra cozinhar "com pensa"
 era muto mais caro!]


domingo, 26 de junho de 2011

Scorpio

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A constelação de Escorpião em foto retirada da net
 (não sei de quem) e bagunçada por mim



Eu vinha pela estrada de sempre, no cansaço de sempre, quando os poucos carros que cruzaram por mim começaram a sinalizar com os faróis. Qual seria o contratempo daquela vez? Polícia, animais na pista, homens trabalhando... 
Depois da curva dos nove ciprestes (que agora são seis porque uma tempestade derrubou três deles no último verão), foi que vi os restos dos carros. Irreconhecíveis. Dois. Batida frontal. Ao lado deles, dois corpos femininos, solitários, se estendiam sem vida sobre o asfalto. Os rostos cobertos ainda assim me fitaram, desfigurados de pavor. Eu vi. 
Um pouco mais adiante encontrei-me com elas. Caminhavam vagarosas, tristes, sem dizer palavra. Ia uma atrás da outra pelo arremedo de acostamento tomado pelo capim vermelho brotando (seria abril ou junho?). Perguntei para onde iam. Não me responderam. A da frente apenas me olhou e disse que precisavam mesmo ir, e quanto a mim - me apontou o dedo e os olhos já serenados -, que eu me preparasse, que meu dia estava chegando. A que vinha atrás então completou: "e vai ser sob o signo de escorpião".

Sim, era só mais uma égua da noite. 
Ou o meu cansaço.







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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Segredo

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Intervenção sobre pintura de Eugéne Boudin:
Nuvens brancas, céu azul. c.1859. Pastel. Musée Boudin




"Para encontrar o azul, 
eu uso pássaros"

(Manoel de Barros)

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quinta-feira, 9 de junho de 2011

b a o b a b

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"Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

(Guimarães Rosa)

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