terça-feira, 15 de maio de 2012

Nudez

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Amedeo Modigliani. Nu reclinado - grande nu. c.1919. óleo sobre tela; 72,4 x 116,5 cm. Nova Iorque, MoMA



Quando estás vestida,
ninguém imagina 
os mundos que escondes
sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
não temos noção
dos astros que luzem
no profundo céu.

Mas a noite é nua
e, nua na noite,
palpitam teus mundos
e os mundos da noite.

Brilham teus joelhos.
Brilha o teu umbigo.
Brilha toda a tua
lira abdominal.

Teus seios exíguos
- como na rijeza 
do tronco robusto
dois frutos pequenos -

Brilham.) Ah teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
ficam nus também;
Teu olhar mais longo, 
mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
bóio, nado, salto,
baixo num mergulho
perpendicular!

Baixo até o mais fundo
do teu ser, lá onde
Me sorri tua alma
nua, nua, nua.


(Nu, Manuel Bandeira)





quinta-feira, 26 de abril de 2012

terça-feira, 24 de abril de 2012

aonde

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N o c é u a z u l n u v e n s n u a s
No teu olhar céus febris
P a s s o s m a i o r e s q u e a s r u a s
C a n ç õ e s q u e e u n u n c a f i z
(...)

P r a o n d e f o r e s e u v o u
Aonde  flores  eu  fujo
T e d o u m e u p o e m a s u j o
q u e e u n ã o s e i f a z e r t o a d a
M e n o s q u e s e q u e r é t u d o
T u d o q u e s e t e m é n a d a

(Zeca Baleiro, Trova)

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segunda-feira, 16 de abril de 2012

apenas

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a árvore é um poema
não está ali
para que valha  a pena

está lá
ao vento porque trema
ao sol porque crema
à lua porque diadema

está apenas


(Leminski)


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terça-feira, 3 de abril de 2012

beabá

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(fotografia da net, retrabalhada por mim)

Eu me cubro com o A da palavra farpada
eu me cubro com o A que traslada
(e a memória é a ignição de uma idéia
sobre dunas de pólvora).

Eu me deito na décima-terceira casa, 
eu me deito sob a letra de mãos dadas
M: escondo entre escombros
o sentimento que sobra.

Isto, sim, me comove,
o anel, quando soa
e engloba, envelopa, 
remove a pessoa 
- letra O, de vertigem e pó,
que soçobra.

Eis o despenhadeiro,
gargalo da fera,
eis o R que trai, apunhala, 
desterra - eis o último tiro
sem margem de manobra.




(Cláudia Roquette, 
Margem de manobra)

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segunda-feira, 26 de março de 2012

Héstia

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To whom I owe  the leaping delight 
that quickens my senses in our waking time
and the rhythm that governs the repose of our sleepingtime...
(T. S. Eliot)






Certa vez, muitíssimos anos atrás, a noite nos apanhou, a mim e a meu ex-marido, namorando a casa que estávamos construindo. De projeto ambicioso, nunca ficava pronta, nunca parava de exigir dinheiro. Anos construindo, ansiando dia após dia, mês após mês, por ver o resultado acabado. Naquele finzinho de tarde, me lembro bem da emoção que senti quando vi, pela primeira vez, a luz acesa lá dentro. Pensei comigo: agora essa casa tem  alma, agora tem vida, agora é uma casa, não mais uma obra. 
E disso os antigos sabiam: é o fogo - luz e calor - que dá vida à casa. Os gregos criaram Héstia, a deusa filha de Cronos, da primeiríssima geração olímpica: é a personificação da chama sagrada que protege, enquanto aquece e ilumina, os lares; a chama em torno da qual a família se reúne e se aconchega. As residências gregas possuíam um altar onde noite e dia uma chama era cuidada, mantida viva. A palavra 'lar', aliás, vem de 'lareira', denotando a mesma ideia trazida por Héstia.

Nada conforta mais o homem do que a simples vista de sua casa iluminada quando a noite avança. É nesse instante que a casa, o edifício inanimado, se transforma em lar. 
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sábado, 24 de março de 2012

naveave

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Vista da Mantiqueira em Gonçalves (MG). Março de 2012



Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso
Caminho.


(Hilda Hilst, Trovas de muito amor para 
um amado senhor I, in Exercícios)

também aqui
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quarta-feira, 21 de março de 2012

Sertã ao lume brando

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Antoine Vollon. Natureza-morta com frigideira, jarra, garrafa e ovos sobre uma mesa. 
s/d. coleção privada


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Sempre me impressiona e encanta a amplidão da língua portuguesa, as sutilezas nas variações de construção e de vocabulário que separam, como o próprio Atlântico, a nossa língua portuguesa daquela sua matriz lá do outro lado do oceano.
Hoje, pesquisando para uma tradução uma receita medieval de ovos fritos à judaica, fui parar numa página da net em que um de nossos irmãos de língua ensinava a fazer ovos estrelados, digamos,"à poesia":

Ingrediente: 4 ovos; 30 g de manteiga; sal q.b.
Preparação: Deita-se a manteiga na sertã [ou seja, na frigideira: a palavra não consta do Houaiss] ou prato próprio e leva-se ao lume brando. Quando começar a aloirar, deitam-se-lhe os ovos previamente partidos para um pires. Devem ficar com a gema inteira. Quando a clara estiver coalhada, está pronto. De vez em quando, durante a fritura deve dar-se à sertã um ligeiro movimento para os ovos não pegarem no fundo.
Observações: Habitualmente os ovos estrelam-se com bons resultados em azeite fino.


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quarta-feira, 14 de março de 2012

Reinvenção



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AROS, iniciei um novo blog há uma semana, onde posto apenas as minhas brincadeiras fotográficas: imagens que reinvento a partir de fotografias, e quase nada de palavras. A fotografia ali é o meio expressivo de base, mas é transformada, afastando-se da sua linguagem comum. Espero que gostem desses que eu chamei de meus "poemas mudos": 


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segunda-feira, 5 de março de 2012