segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Oco

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Ele se foi assim

como o dia que de improviso se muda

e se muda em noite sem me levar consigo.

E eu permaneço

estátua de sal

em torno da qual orbitam

desgarrados

os ecos desnorteados

de seus muitos ruídos.

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sábado, 11 de setembro de 2010

Vere novo

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Eis que é chegado novamente o tempo da renovação.
Tempo de verdejar e de florescer; tempo de exuberância.

Nenhuma estação deve ter sido mais cantada do que a primavera, que reinicia o ciclo da vida após o árido descanso invernal. Fácil é fazer a analogia com todos os recomeços, os nascimentos, as esperanças.

Para nós, a primavera acontece em setembro. No hemisfério norte, após o degelo de março, com a elevação das temperaturas, os homens voltavam ao trabalho nos campos e até as guerras podiam ser retomadas - e daí março ser o mês dedicado a Marte, o deus guerra.

Primavara (romeno); primvers (provençal); primevoire (francês arcaico), primavera (português, espanhol, italiano e catalão). Do hemisfério norte vêm ainda a palavra que designa este tempo de esplendor. De sua etimologia (primus-ver), 'prima' vem do latim primus, significando 'primeiro', com a possibilidade de também dizer 'antes'.  Do restante, ver-véris remeteria tanto à estação  seguinte e a mais quente de todas, o 'verão', quanto às 'flores'. De ver, no entanto, supõe-se uma raiz de origem no caminho veser-vasantas, que remontam ao sânscrito vas, com o sentido de 'arder', 'resplandecer'. 
A palavra, portanto, traz não apenas um aspecto semântico bastante rico, mas uma vasta sugestão de imagens. A 'primeira estação' do hemisfério norte (no francês, lieralmente primtemps) é o tempo que precede o calor do verão, o tempo do florescer, o tempo do primeiro esplendor.

vere novo (lat.): o começo da primavera









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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O amor tem muitos nomes

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Para a Pepa-Pepinha-Pepita-Peputcha,
que de palavras não sabe nem sonha, mas hoje nos deixa tendo sabido (e vivido) um pouquinho do amor



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Pepinha assim que chegou em casa, bebê, há sete anos





Numa vida inteira quantos nomes será que o amor pode ter?
Nomes sérios, que se acompanham de sobrenomes ainda mais sisudos, ou apelidos carinhosos, curtinhos e saborosos, que se multiplicam sem cessar conforme os trejeitos do muito afeto.
Nome de mãe, nome de pai, os primeiros que a gente aprende e nunca esquece: nome de pedir socorro, abraço e colo.
Nome de filho, que é escolha séria e calibrada, plantada junto com a semente que enraiza e jamais jamais se vai...
Nome de irmão, de mano, de quem compartilha.
Nome de amigo, que é letra e melodia quando se escuta do outro lado da linha ou quando se enxerga, em destaque imediato, entre as linhas monótonas do correio virtual.
Nome de namorado, que a gente guardava com o baú  das cartas, quando o correio era mais lento e as esperas imensas, e depois sonhava, e repetia em voz alta nas falas solitárias, e anotava nos diários...
E um nome de rua, um nome de cidade, quem nunca amou?
Nome de bicho...



Nome de bicho: desses possíveis (tantos!) nomes do amor isso sim tem muita gente que não sabe.... E eu sinto pena de quem nunca provou deste, uma pena que é bastante próxima da que experimento em relação àqueles que, por diversas razões, são incapazes até mesmo de enxergar-ver-avistar o ipê branco que se abre todos os anos na praça e a abraça inteiro com sua copa generosa e deslumbrante, protagonista absoluto da cena. Pisam suas flores, mas não olham para cima. Não se dão conta.



Então é hora de confessar aqui meu preconceito terrível contra dois tipos de gente (que, na verdade, costumam se reunir num só): gente que não gosta de criança e gente que não gosta de animais. Nem passo perto!





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Um dia, há sete anos, passando de carro em frente à veterinária já avistei a gaiolinha das doações com uma caixinha dentro. Tinha gente pequena ali. Fui ver. Um filhote lindo de morrer, bege tigrado de olhos imensos de um azul asa de borboleta rara. Veio serelepe, já sabendo, a danada, de como era sedutora. Enquanto eu corria pra ela, uma moça tomou a minha frente e a apanhou no colo, a gata linda. "Eu vi primeiro", me disse de uma forma irritante. "Tá bom", pensei comigo, e já me virava pra ir embora quando avistei no fundo da caixinha de papelão dois outros olhões brilhantes, menos belos, certamente, e tímidos, e tristes, exatamente como mostra a fotografia que escolhi. Irmã da radiante, muito menos radiante, estava ali a Pepita, que apanhei imediatamente e levei pra casa.
Eu já tinha a Nina, um ano mais velha, e queria uma companheira para ela. Também a Nina viera da mesma gaiola dos bichinhos abandonados. Uma semana mais tarde, a moça afobada que havia levado a irmã loura da Pepinha a devolveu, alegando que fazia estragos demais, bagunça demais. E foi assim que a Lola veio também morar conosco. Arrumamos, de repente, um delicioso balaio de gatas!




                      Lola, Pepa e Nina, meu balaio de gatas


Nina é a dona do pedaço, a primeira a comer, a que decide; Lola é a bela (exibiiiiiiida!); Pepinha, a resignada, humilde, isolada, retraída, talvez triste. Não disputava as fatias de presunto, levava uns chega-pra-lá da Nina, era a primeira a se retirar nas situações alegres. Era, enfim, a mais frágil, aquela mesma que ninguém via no fundo da caixinha surrada em que a conheci. Mas eu a vi. E ela sabe disso.

Neste momento, enquanto escrevo este texto, Pepinha está aqui ao lado, embrulhadinha no cobertor, imóvel. Agoniza após uma semana de internação e sofrimentos inúteis. Somente os olhos tristonhos de sempre me acompanham, me fixam, não me deixam... Mais oblíquos do que nunca, secos e fundos. Se eu desapareço por um instante de seu campo de visão, ela me recebe com miado fraco assim que retorno. Será que me chama? Seus olhinhos baços me dizem que, embora sua vida tenha sido breve e bem pouco emocionante, ela sabe sim que faz parte da minha história e da da minha filha e, sobretudo, que o seu nome é um daqueles a que eu chamo amor.

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Empatia

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Meio dia de um dia
azul
(em mim)
No contratempo do vermelho,
ele carrega outra palavra
        outra cor


E enquanto parte
- nem me viu -
me deixa todo o sentimento

 

 
'Empatia'
[ segundo o Houaiss ]: 
| 1 faculdade de compreender emocionalmente um objeto
| 2 capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto,
de forma que este pareça como que impregnado dela
| 3 capacidade de se identificar com outra pessoa,
de sentir o que ela sente,
de querer o que ela quer (...)







quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Lunitudes

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(silence...)
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.Fotos: Amarilis (Letícia). Uma tarde de agosto pelos caminhos da Estrada Real


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Solitudes

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(silence)




Fotos: Amarilis (Letícia). Uma tarde de agosto pelos caminhos da Estrada Real
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sábado, 14 de agosto de 2010

Harmonia

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De repente
de passagem abre-se o céu
e em descentrado abrigo

um sol no peito




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Harmonia: segundo o Houaiss, a palava vem do grego, significando 'união', 'acordo', 'ordem'...  "combinação de elementos ligados por uma relação de pertinência, que produz uma sensação agradável e de prazer"; "ausência de conflitos; paz, concórdia"; "conformidade entre coisas ou pessoas; concordância"...
Não por acaso, o termo é revestido de  muitas e sutis acepções dentro do universo das artes - arquitetura, música, literatura - indicando substancialmente, porém, uma feliz concordância entre elementos díspares na formação de um todo. Trata-se, em suma, de como as partes, pelo que são individualmente, plenas em si, quando colocadas a se relacionar dentro de um determinado limite, concorrem para a formação de um todo que  justamente por essa relação de plenos concordantes se enriquece, se engrandece. Essa relação é capaz de tocar as cordas de muitos sentidos, capaz de pacificar o caos, amenizar as angústias e, sobretudo, gerar beleza.

O autor da foto é um sujeito sem nome (vejam os créditos abaixo) que enxergou maravilhosamente bem a relação harmônica entre a parede azul ( superfície gasta, humilde) de uma igrejinha em Puebla, no México, e uma laranja. Relacionou o plano e a concavidade, a luz e a sombra, o azul e o laranja na medida exata para não brigarem (porque essas cores, complementares que são, tanto se atraem quanto se repelem), rimou formas circulares e semi-cirulares... Selecionou do mundo em torno de si um pequeno e delicioso quadro harmônico.





foto original por 'thefirstnoname' in http://www.flickr.com/photos/mathoms/1200688607/
texto: Amarilis|Letícia
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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Noa

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NOA


Nastro de céu rasto de luz
 abençoando
o dia




 


'Noa': a nona hora canônica, entre a sexta e as vésperas,
por volta de três horas da tarde.
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Imagem e texto: Amarilis (Letícia)
 Registro e memória da luz acolhedora que todas as tardes
 inunda a sala da minha casa
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Matutino

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Matutino



Uma manhã dessas, eu conheci a poesia
Assim, de repente.
E a poesia, pra minha surpresa, não tinha palavras
Nem precisão
Era alvorada de sombra e luz movediças,
alternadas
À velocidade do automóvel
E ao recorte dos telhados
ainda orvalhados de sonhos
e de preguiça

 
Umas cabeças douradas, poucas,
Seguiam pelo mosaico luzente
do asfalto,
quando me rasgou o ventre,
aguda e improvisa,
a invernal lâmina
da memória
E arrancou de meus olhos –
porque sempre foram suas –
duas pedras roliças
de prata
e sal.




imagens e poema: Amarilis (Letícia)

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Agosto

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P.-P. Prud'hon. A imperatriz Josephine em Malmaison. 1805.
 Óleo sobre tela; 244x179cm. Paris, Museu do Louvre


Agosto

 

Olho-me no espelho, “plácido lago de chumbo” (quem disse isso?). Queria ser eu a de dentro, a que rompe espaços mesmo em muralhas e ignora de que matéria são feitas as dores.
Faço o laço da blusa cor de carne, delicadeza retrô – souvenir de 1800. Eu e minhas fragilidades ... (memória: uma pintura de Prud´hon, Josefina numa sombra de Malmaison – o olhar denuncia a dor antecipada pelo iminente abandono). Pura melancolia.
Os lábios descamam, feridos pelos dias de febre. Os olhos, de tão lavados, perderam paradoxalmente o brilho; uma base escura e inchada os contorna e os oferece assim, em destaque, à apreciação do mundo – que não me vê.
Um vinco novo atravessa a superfície vasta vasta da fronte (memória: Marguerite Duras falando da cartografia do rosto que apenas viveu; nenhum pesar pelo fugir do tempo).
O espelho aponta os cabelos lisos e, no meio deles, uns dois, três, talvez meia dúzia de fios brancos.
Da cartografia do rosto passo à topografia do resto.
Visto os jeans e observo o corpo seco, esse suporte da alma, tagarela e dedo-duro. Vão perceber que está oco dos joelhos para cima. Apanho no espelho a sombra espessa dos cacos tomando a extensão dos tornozelos, inflando as pernas, abrindo a pele em farpas estreladas.
Não sangram mais.
No poço negro das órbitas penduram-se os dois globos baços, que lentamente se voltam na direção do chão, com um discreto ranger. Encontram os pés, meus pequenos pés. Observo-os enquanto calço os sapatos (outro primor de beleza inútil) e rogo o esforço das juntas, todas, para transformar em verdade a necessidade do movimento - que é indicação de vida... Saio, enfim, tilintando fragmentos num equilíbrio impossível. O arrastar dos cacos ecoa insuportavelmente pelo deserto restante. 

Vão notar que eu não estou.
              
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